Tuesday, September 30, 2014

Conferência anual do não quero mais ser assim

Gilberto tem trinta e tantos anos, casado, tem uma filha de seis anos. É um profissional competente que em pouco tempo, graças a uma dedicação extenuante, chegou ao topo da carreira conseguindo o cargo de gerente de sua divisão de trabalho. O novo patamar no emprego trouxe grandes responsabilidades, acúmulo de funções e transformou sua personalide de uma forma inesperada que desagradariam e iriam contra os princípios do Gilberto jovem. Só um exemplo: ele se viu ao lado dos patrões que não queriam dar férias coletivas no final do ano, época em que as demandas são quase nulas. Ele ficou do lado oposto dos colegas e aliou-se aos empregadores que querem o trabalho puro, duro e rentável a qualquer custo.

Se você perguntar para o Gilberto como é o seu trabalho ele irá falar muitos termos técnicos. Todo ano, na primeira semana de outubro, há a conferência que ele é obrigado a participar. A data do evento coincide com o aniversário de casamento. No começo era revoltante ter que ficar longe da esposa, mas com o passar dos anos e o desgaste da relação tornou-se um alívio. Os mais renomados especialistas da área reúnem-se em debates, mesas redondas e planos de turismo para os dias de folga. Várias boas ideias são apresentadas, analisadas, discutidas, orçadas e não realizadas.

Nas primeiras edições ele era o principal entusiasta e engajado das palestras. Atualmente, você encontra o homem em cada reunião em seu posicionamento básico, fingindo ouvir e (com a caderneta e caneta que ganhou de brinde) anotar. Aos poucos ele vai desmontando e revelando o semblante melancólico cansado. Muitos dos temas da convenção são como deixar o mundo sustentável para as gerações futuras. Gilberto passa onze horas e trinta minutos fora de casa, contando o horário de expediente, almoço e no trânsito. É mais próximo e sabe mais da vida do seu colega da mesa ao lado do que da filha. A falta de atenção é compensada com presentes, ele está tentando deixar um planeta melhor, mas não vai deixar muitas memórias de presença afetiva. Nesse tipo de evento sempre há um envolvimento sexual, seja com uma executiva ou prostituta. Quando reencontra a mulher enche-se de remorso, mas o prazer aguenta a culpa.

Nesses dois últimos anos esses pensamentos rondam a cabeça de Gilberto, seja em almoços artificialmente descontraídos para expandir a network ou sozinho no hotel, no quarto ou vagueando por festas alheias no salão. Gilberto não sabe onde foi parar seu viço com a vida. Alguém de fora pode pensar que ele está realizado, completo e pleno. Mas ele sente o vazio e que chegou em um ponto que todas suas conquistas não são, realmente, satisfatórias ou vantajosas para sua felicidade, mas é preciso colocar pão na mesa. Agora mesmo, ele está perdido em um escapismo tolo. O palestrante arrogante, que cobrou cem mil reais, despeja sem parar motivações para o comprometimento com trabalho, sobre sua bem-sucedida carreira, enquanto Gilberto desenha nas folhas de papel.

 

Saturday, September 20, 2014

Memorabilia

Estavam chegando perto do local meia hora antes do compromisso, para matar o tempo e parecerem pontuais resolveram passar em uma loja de móveis usados. A atendente muito solicita, mas sem desviar os olhos da tela do celular, dá as boas vindas.

_ Boa tarde, vocês estão procurando algo específico?

_ Não, a gente só vai dar uma olhada.

O estabelecimento não é dos mais organizados. A poeira é item quase obrigatório depositado em cima de cada objeto. O chão é uma mescla de azulejos de diferentes formas geométricas e cimento batido. Os móveis são espalhados e desordenados aleatoriamente. Do lado de um aparador moderno de pés palitos tem uma penteadeira Luís XV com pés curvos entalhados. Um carrinho de recém nascido estilo “O Bebê de Rosimary” fica perto de uma cadeira estilo Art Nouveau com um cavalo marinho esculpido no espaldar. Os produtos são os mais variados: os já caducados, como máquina de escrever e toca discos; dos mais atávicos, como o ferro de passar roupa à brasas e lampião movido à querosene; os triviais, como liquidificador e telefone. Cada mobília tem sua história, seja como peça de decoração ou como material emocional que passou por uma família ao longo dos anos, carregam memórias. Ao serem descartados será que a lembrança que eles possuem também é vendida? Como alguma avó poderia dizer “Se esses móveis falassem…”

_ Imagina abrir um armário e ter um portal do tempo aí dentro.

_ Teia de aranha e ácaros com certeza tem.

_ Se você parar para pensar as Casas Bahia são lojas de móveis vintages adiantadas.

_ Loja retrô com ejaculação precoce.

Lá nos fundos do armazém uma caixa de papelão guarda um punhado de discos de vinil. Foi surpreendente encontrar o LP “Tatto You”, álbum de 1981 dos Rolling Stones. Mas dentro havia a trilha sonora nacional da telenovela Fera Ferida. O que chamou a atenção foi a dedicatória na capa.

“Para Ângela, com carinho Roberto, 19/08/1987”

Logo abaixo outra frase.

“Roberto não posso aceitar. Desculpa”

                                                   … 

Roberto e Ângela conheceram-se através de amigos em comum, frequentavam a mesma praça na cidade de Mauá, estado de São Paulo. Começaram a conversar por terem o gosto musical em comum, escutavam Beatles, T-Rex e os Stones. Roberto apaixonou-se pela garota, mas Ângela já tinha um namorado que estava servindo ao exército. O amor do rapaz não cedia. Ângela ficava irritada com as investidas do moço e deixou bem claro que não queria nada ao recusar o presente. Desiludido, Roberto escondeu o disco em seu guarda-roupas.

Roberto morreu em um acidente automobilístico no natal de 1989. A mãe do jovem doou seus pertences aos primos e amigos. O disco foi passando de mão em mão, até que foi vendido à um sebo.

Ângela casou-se com o namorado, que depois de 5 anos começou a espancá-la. Separou-se e, depois de 3 anos solteira, casou novamente. Hoje vive tranquila no Rio de Janeiro, tem duas filhas, um marido exemplar, mas não transa há 6 anos.

                                                  …

_ O que será que aconteceu com o Roberto e a Ângela?

_ Não sei, só sei que estamos 5 minutos atrasados.

Wednesday, September 17, 2014

Quando comecei a assistir os filmes do Woody Allen achava que nunca ia gostar desse Cole Porter que os personagens tanto adoravam. 

Wednesday, July 16, 2014

Deitado na cama, estou acostumado com o cheiro de suor e perfume encalacrados nas roupas de cama (eu não sei o nome daquele lençol com elástico nas bordas que é difícil de colocar no colchão). Me sinto estranho quando são trocados os panos, mudam os desenhos e cores, principalmente os odores, agora um cheirinho de amaciante. Gosto do sossego e da sujeira, de dominar deixando livre. Eu nem sei o que é o amor. De longe, o mais perto que cheguei de saber o que não era, foi sentir a sua respiração nos pelos das pernas, enquanto você queria obrigações e símbolos. Prefiro a economia de palavras e sentimentos. 

Não li em um livro de Goethe, vi num programa de televisão a frase “Quando dois seres humanos estão perfeitamente contentes um com o outro, podemos assegurar-nos: eles estão completamente enganados”. Nunca fui contente ou estive satisfeito.

Monday, May 26, 2014

ainda espero aqui fora

eu quero entrar e você não me chama

é chato ficar esperando sentado em uma cadeira

enquanto eu quero deitar na tua cama

        (de dois mil e sete)

Monday, April 21, 2014

O descanso da luz após viajar o epaço sideral

Na reunião.

— Muito bem-vindos senhoras, senhores e corintianos.

(risos)

— Convocamos essa reunião para debatermos os resultados e efeitos da nossa reunião passada.

— Com licença! Eu não estava na reunião anterior, qual era mesmo o assunto?

— Vários. Todos de interesse da empresa.

— Me desculpe interromper. Temos que discutir meu novo projeto. Nesses meus trinta anos de carreira trabalhei nas mais renomadas corporações do país e do mundo, fui reconhecido com diversos prêmios e troféus. Sendo assim, acredito que um impasse no orçamento do meu novo projeto é aviltante.

— Cadê o café?

— Nós não precisamos do feedback do público. Precisamos que eles comprem nossos produtos

— Gente, é o seguinte: vocês precisam se dedicar mais ao serviço, amar o trabalho, ter mais comprometimento e entrega. Nós somos uma equipe. E vocês sabem que não podemos pagar hora extra.

Lá no canto da sala, desviando do óbvio debatido na reunião, ele saiu do encontro. Estava presente, passaria as oito horas do expediente ali, de prontidão. Mas a pequena fresta na persiana chama mais a atenção ao mostrar a pequena beleza de um dia fora da jaula. O olhar, que fica entre o perdido e o querendo achar algo, fugiu da sala mal iluminada por algumas lâmpada fluorescente e pelo retroprojetor que projetará os trinta e sete slides da pauta da reunião. O frio bege e cinza dos móveis de escritório são ignorados pela retina. O verde da grama, o azul do céu e o amarelo dos raios solares são mais atraentes.

Parou para pensar na incrível jornada da luz do sol que viajou por todo o espaço sideral, por muitos quilômetros de distância, atravessando a camada de ozônio cheia de buraquinhos, e que se deitou na grama para descansar. Gostaria de saber como que a luz do sol se deita em outros lugares.

Pegou o celular e conferiu a hora. Mais três horas de reunião até chegar o fim do dia.

Sunday, March 16, 2014

Franny Glass - De Una Vez

Além do presidente gente boa, o Uruguai tem música boa, buena onda.

Wednesday, March 12, 2014

O leite de Medeia

Seu poder de manter a relação como quer já não é mais o mesmo. Se antigamente se dava ao luxo de esperar e fazer esperar reconciliação, hoje se humilha por perdão. Ela sente o desgaste, mas o amor é maior, deve ser maior, ela ouviu dizer que é maior do que tudo. Ela sente na expressão cotidiana dele que está perdendo seu namorado. Ele queria ser o oposto do pai. Ela quer ser melhor que a mãe.

O destino, aquele que não existe, mas que alguns acreditam e talham, fez com que ela engravidasse. Ele ficou abalado com a notícia. Cogitou pedir aborto, mas resolveu encarar a vida, desistir dos sonhos de aventura e liberdade, dormir no colchão macio, ortopédico e de molas da realidade.

Ela estava plena. Foi amada e venerada por nove meses, nunca em sua vida havia se sentido o centro das atenções. O namorado, agora noivo, era todo olhos e admiração. Paparicos da família e amigas.

No parto sentiu a dor da vida. Essa dor deixou suas marcas e rastros, que se estenderam e,até talvez, provocaram toda a tragédia ou foi só o sinal de alerta do que viria.

O recém nascido subtraiu as atenções que eram para ela. O marido agora trabalhava mais para poder dar uma boa educação ao filho, a a e tias bajulavam o rebento, enquanto ela ficava na periferia das atenções.

Ela sentia um sentimento estranho, não era depressão pós-parto. Amava o filho, dava banho, trocava fraldas, amamentava mesmo que os seios doessem e sangrassem. O bebê não dormia a noite, o que agravou sua insônia. A criança chorava noite a dentro, queria mamar em todas as horas da madrugada. O horário orgânico dela estava desregulado, deixando-a transtornada, fora de si, e até mesmo alucinada as vezes. Mesmo assim, se dedicava ao filho.

Alguns meses depois, percebeu a ausência constante do noivo, o mínimo de tempo em que permanecia em casa era dedicado ao primogênito. Rumores e insinuações de possível infidelidade eram discretamente lançados. Quando os boatos se fizeram quase realidade, ela se tornou fúria. Queria vingança contra seu amor, quando viu a possibilidade de pagar na mesma moeda, foi a um motel com um desconhecido, mas não consumou o ato.

O marido ligou avisando de uma viagem de trabalho repentina, ela polidamente aceitou. Deu de mamar ao filho e deitou-se. Depois de meses não conseguindo dormir, caiu em sono profundo. Acordou no começo da tarde do dia seguinte. Quando foi ao berço, encontrou o bebê imóvel sufocado com o leite materno.

Passou resoluta pelo luto. O marido se despedaçou em pranto e lamúria, se sentiu culpado e castigado por se desviar do valor da família, prometeu ser um bom homem e marido, prometeu amor eterno a mãe de seu filho. Ela aceitou o recebendo entre seus braços. O amor, como ela bem sabe supera tudo, ela superou.



Monday, February 24, 2014

Prestes a chegar em casa, depois da aula de dança, como sempre, o viu sentado no meio-fio esperando-a, mas não era como antes. Sem palavras, apenas com cordialidade facial rasteira, subiram os quatro lances de escadas mudos, só se ouviu o barulho das televisões dos outros apartamentos e os pés nos degraus.

Ao chegar no recinto, abriu a mochila e começou a guardar algumas roupas e objetos pequenos. A marcha em retirada do ninho de afeto destruído. Não foi a infidelidade trocada ou a reminiscência das farpas e defeitos jogados na cara. Era efeito do colapso polido do constante choque entre a passividade dele e a tempestuosidade dela que esfarelou e transformou o relacionamento em resíduo sólido não reaproveitado.

Ele sabia onde estava tudo o que precisava retirar. A dúvida só se apresentou quando viu o quadro que emoldurava dois pedaços de papel com o desenho da face dos dois feitos um pelo outro. Quando ela percebeu que ele titubeou em pegar o objeto logo uma agressividade descontrolada e volátil se mostrou.

— Pode levar!

Saiu em disparada da cozinha, atravessou a sala como um foguete e socou o quadro na mochila. Pegou a folha de revista grudada da parede e tacou na cara dele.

— Leva a Monica Bellucci também, para ela te fazer companhia – tratando de expor um rancor amargo e azedo que estava coalhado – Pra você lembrar de mim – na calmaria da tempestade – Nossa vida sexual foi praticamente tu batendo uma punheta pra ela.

A moça realmente era a imagem da lembrança da atriz italiana. Mas todo o ódio derramado não afetou o rapaz, continuou sereno na tarefa de recolher seus pertences.

— Como tua mãe diz mesmo “Tu és um monólito do estoicismo”.

Ela saiu de cena, em cadência e de olhos fechados, passou a mão acariciando a pele da parede para provocar arrepios. Foi até o notebook e escolheu o mp3 “Acostumar”.

— Porque você colocou essa música?

— Pra ver se tu fica.  

Thursday, January 23, 2014

Feromônios

— Alô.

— Oi, como você está?

— Peidando muito. E fedido.

— Seu porco miserável!

— E como você está?

— Trabalhei sem nenhuma perspectiva de vida durante oito horas. Agora no trânsito, com esse calor desgramado, parece que tem um buraco da camada de ozônio de baixo da minha cabeça. Resumindo, estou cansada e suada.

— Acho que eu não te contei. Na noite em que a gente se conheceu eu tomei um banho caprichado, passei perfume, e um pouco antes de sair, fiz uns polichinelos…

— Polichinelos?

— Sim. Para exalar feromônios.

— Nossa! Como você é romântico.

Sunday, January 19, 2014

Adeus palavras

O que estava acontecendo no interior, não apenas daquele lugar, estava incomodando. Ela saiu esbarrando nas pessoas e cambaleando em passos distintos que caminhava em suas botas de couro. Pegou o maço de Lucky Strike e um isqueiro, que mais do que vício, fazem parte da estética e complementam o charme.

Incendiou a ponta do cigarro e se escorou na parede da área de fumantes. Um longo trago, a fumaça circula pelos pulmões e dá adeus se dissipando no espaço frio. Fumar é um tempo para pensar introspectivamente, é um ato de parar a vida e contemplar o vazio que acontece dentro.

O movimento leva o cigarro até a boca, deixa a marca dos lábios pintados em vermelho no papel que envolve o filtro. Ao baixar a arma, cuidadosamente relapsa, esbarra a brasa de tabaco no braço do rapaz que está ao seu lado.

—Au!

— Me desculpe! Perdão!

— Não foi nada.

— Desculpa sério – meio sem graça e depois de um tempo – claro que foi alguma coisa, eu queimei seu braço e alguns pelinhos.

— Nada grave, pode ficar tranquila, depois eu roubo um gelo de algum drinque e passo.

Um leve sorriso mútuo é disparado. Um tempo depois, que parece uma hora, mas que, cronologicamente, não chega aos 50 segundos, o diálogo é retomado.

— Tu já percebeu quantas respostas automáticas existem e a gente sai por aí distribuindo?

— Sim! Foi isso que eu pensei. Ás vezes, quer dizer, muitas vezes, eu uso essas respostas programadas porque eu não tenho o que falar, não encontro significado, e por não ter um significado, uso essas repostas gastas e velhas. Eu odeio isso.

— Eu penso que essas palavras de uso comum não traduzem o que uma pessoa sente ou quer dizer. Elas significam muito do ponto social e coletivo, mas não para uma pessoa.

— Eu penso o mesmo! Você falou o que eu sempre pensei, mas nunca consegui organizar o pensamento e as palavras e falar. Cá entre nós, acho que as respostas e palavras automáticas e usadas estão envenenando meu pensamento. Uma maçã podre pode estragar o cesto.

— Sabe, eu cansei das palavras e das falas, eu gostaria de ter meu próprio vocabulário, mas que todo mundo pudesse compreender, que as palavras fossem só minhas, que aquela sequência de letras me representasse fidedignamente.

— Ual! “fidedignamente”, acho que essa palavra é só tua. Mas, às vezes, eu acho que eu tenho um idioma só meu e as pessoas não me entendem. Às vezes eu sinto a necessidade de falar e repetir o que eu digo umas duas ou três vezes, e, mesmo assim, acho que não me entendem. E olha que eu uso as palavras e frases de sentido comum, mas, ainda assim, me sinto incompreendida - com um tom dramático - Eu fiquei nas ruínas da torre de Babel.

— Tu quer entrar e tomar uma cerveja comigo?

— Claro!

Wednesday, January 15, 2014

Beatriz e o Voyeurismo

O primeiro contato de Beatriz com a sexualidade foi em uma noite na casa de uma amiga, ainda na infância. A amiguinha, um pouco antes de dormir, chamou Beatriz para ver uma coisa. As duas saíram do quarto e atravessaram o corredor escuro em passos silenciosos. De frente a uma porta, a amiguinha de Beatriz faz o gesto da cautela, indicando o buraco da fechadura. Beatriz, com um olho fechado pela pálpebra e outro aberto pelo interesse, assiste ao coito dos pais da amiga.

Aquele momento inaugura o voyeurismo na vida da menina. O segundo contato com o prazer de observar se dá na juventude. Durante uns amassos com seu primeiro namorado, a fim de conservar sua pureza e satisfazer a vontade do gozo, é combinado entre ela e o rapaz a masturbação. Beatriz percebe nesse instante que, não apenas os seus dedos, mas, principalmente, seus olhos são essenciais para a satisfação. Seu fetiche, caminho para o prazer, está descoberto.

Beatriz tentou reprimir seus impulsos eróticos, uma vergonha cobria sua pele. Ela tinha uma pequena fuga: assistir vídeos de flagras sexuais na internet. Apenas três vezes, ao espiar pela janela em noites de insônia, conseguiu surpreender casais transando. Os três melhores orgasmos de sua vida.

Ela já estava esquecendo de sua tara, normalizado a líbido. Uma vez, após uma transa, acordou ouvindo o barulho das gotas de água do chuveiro caindo no chão do banheiro. Discretamente levantou, caminhou com cuidado e precaução, abriu lentamente a porta do banheiro, seu namorado praticava o onanismo, não era apenas o som da água que a despertara. Sem pensar, passou os dedos nos lábios superiores e desceu aos inferiores.

Na noite seguinte, ela provou uma nova sensação. Estava quente e ar-condicionado não tinha. Abriu as janelas para entrar um pouco de ar. Depois de um filme provocante, Lua de Fel do Roman Polanski, ela e o namorado começaram as carícias, depois as preliminares e a penetração. Ela estava em cima de seu namorado, controlando a situação, o vento batia e arrepiava suas costas. Seus olhos, despretensiosamente, passaram por um pequeno espelho que fica no criado-mudo. O que refletia eram algumas janelas do prédio do outro lado da rua, em especial uma janela. O sangue fluiu mais rápido ao perceber um binóculo e um homem solitário. Percebeu que agora ela estava no outro lado do desejo, era vítima de um voyeur. Um grande suspiro foi a resposta do pulmão, o cérebro disparou as químicas. Se alguém a perguntasse o que ela sentia, com certeza, responderia “Eu nunca senti algo assim na minha vida”. Após o gozo, deitou exaurida e desacorçoada na cama. Só pensava no que faria daqui para frente, qual atitude tomar. Não conseguiu dormir, levantou no meio da madrugada. Nua, diante da janela, fitou, contemplativamente, a outra janela esperando uma resposta.

Friday, January 10, 2014

O sol arde e queima a superfície

 ferve o músculo e o sentimento que há por dentro

cansei das palavras

cansei da fala

quero um vocabulário próprio

que você entenda

pois o que sinto não é algo compartilhado 

Tuesday, December 10, 2013

Com quarenta e quatro erros fiz minha canoa

que singra o oceano em calmaria 

Sou um menino marinheiro sem futuro

a onda do saber ainda não reverberou e me atingiu

tão lúcido quanto o bêbado 

tão triste quanto o ébrio

A austera bússola é afável

se o vento trôpego sopra em rota de desvio

a âncora se dignifica em esperanças ao ficar no porto

enquanto sonha os sete mares

Monday, December 9, 2013

Para você que me desejou tanto e verde 

esse seria o momento propício 

Agora nada me obriga e me prende 

tenho um ponto final esperando um início 

.

Antes a culpa me dava abrigo

quando o que me impedia era o valor

O tempo desliza aplicando castigo

Para ti guardo um espaço na dor